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Crônica da geração anos 80 do Clube de Surfe de Ilhabela (CSI).

Crônica da geração anos 80 do Clube de Surfe de Ilhabela (CSI).

Foto capa: Arquivo pessoal

Uma das maneiras de se entender o ótimo momento esportivo que os surfistas brasileiros estão vivendo é olhando para o passado, não necessariamente contemplar toda história do surfe, mas, mirando especialmente na geração paulistana de surfistas dos Anos 80. Para entender o que acontece hoje, como podemos explicar o que é uma geração do surfe? Bem, vamos adotar a seguinte metodologia, que é a de delimitar uma geração como sendo uma década, então, são todos os surfistas paulistanos que completaram 18 anos na década de 80. Brilhando no céu do passado, nos Anos 80 registrou-se um fato notório de uma explosão de adrenalina no surfe e uma tentativa inicial de organização desportiva, o que levou o Brasil de volta ao Circuito Mundial de Surfe, o Hang Loose Pro Contest de 1986, na Joaquina, Santa Catarina. Por um longo período, a geração paulistana de surfistas não se acomodou e, ao som de bandas de músicas que sequer eram conhecidas, os jovens surfistas de Sampa, já habituados às viagens para surfar, dominaram as estradas e aeroportos em busca das melhores e mais perfeitas ondas. Descreve essa crônica um tom de homenagem, que é merecida pela geração paulistana de surfistas da década de 80 que, muitas vezes, descobriu os points de surfe, com coragem e independência, mas também com alguma responsabilidade (risos). Atualmente, muitos daquela geração já nem moram mais em Sampa, diria que a maioria se mandou para praia. Desceram a serra faz tempo! Alguns já têm filhos que surfam! Outros até abandonaram o surfe. Mas, foi nessa geração que se desenvolveu um ambiente de transição, como vai ser explicado mais adiante. Podia-se perceber uma melhora na comunicação, nos carros e na tecnologia. Opa! Melhoraram as pranchas e a cordinha! Inventaram uma roupa de neoprene para surfista, chega de surfar com roupa de mergulho (risos)! Inventaram a câmera de vídeo com caixa estanque! E, tudo isso sendo ofertado no mercado pelas lojas de surfe. Também, ocorreu a expansão dos meios de acesso aos destinos para surfar! E, o telesurfe ou surfe-report, pelo telefone (risos)! Foi um presente para aquela geração protagonista da história do surfe em vários aspectos, nos equipamentos, na moda, no estilo de vida. Enfim, eram os Anos 80!

Diante de tanta euforia que acometeu o surfe mundial daquela época, havia um grupo de surfistas que estava se organizando em São Paulo e nem sabia aonde o destino iria levá-los. Opa! A geração paulistana dos Anos 80 bem que poderia ser chamada de geração do “bate e volta”, porque era a forma como aconteciam os deslocamentos entre São Paulo e o Litoral. Os amigos se organizavam em carros, “as barcas”, geralmente, emprestados pelos pais, e dividiam as despesas, saindo da Capital para surfar e voltarem no mesmo dia. A famosa expressão “vamos rachar a barca e fazer um bate e volta” (risos)!

Uma parte daquela história foi a criação de um clube de surfe nos anos 80, idealizado por surfistas paulistanos, fazendo a história do surfe em Ilhabela! Para entender a dinâmica dos fatos, temos que apresentar o ambiente e as idéias do surfe nos Anos 80 e como eles chegaram à Ilha da Princesa Isabel vão ser explicados.

Foto 2

Expedição 1985 – Foto tirada por Eduardo Pinguim (que surfava com o patrocínio da Inside surfboards), na foto Ale “Geléia” Metran e a galera local Totó, Kagia, Betinho, dentre outros. Uma das primeiras expedições.

Foto 1

Expedição de inverno de 1987, saída da PUCSP e chegada na trilha do Bonete – Eduardo Pinguim, Sergio Pibs e Beto Novoa – ressaca e altas ondas, mais de 2 metros, pico na foto. Mais de uma semana ilhados sem comunicação, não dava para sair do Bonete, então, ficamos pegando todo swell do início storm até o final a merreca!

Foto 3

 Expedição sem data definida, mas década de 80, já no final, – na foto Beto Alemão, Nojiri, Eduardo Pinguim, Betinho (local) e Zé.

Foto 4

Nossa refeição no Bonete na década de 80. Peixe e pirão de banana verde!!!
Capítulo I – Início dos Anos 80 no “Canal 1”

 

Em geral, se aprendia a surfar no Canal 1, em Santos. Para muitos surfistas foi assim, não havia muita opção, mas, podia ser na Praia Grande ou no Morro do Maluf, talvez, em Pitangueiras ou Enseada, quem sabe, até em Itanhaém! Então, como de praxe, foi lá, no Canal 1, que eles aprenderam a surfar. É, também, verdade, que muitas coincidências, antes disso, aconteceram nos envolvendo no surfe. A primeira delas foi que uns caras mais velhos, que eram vizinhos, fabricavam pranchas de surfe na garagem da casa deles e a outra, bem relevante, eram os skates Hang Ten e a febre das piscinas na Califórnia e toda a sua orla lotada de skatistas e surfistas. Mas, as notícias demoravam. No Brasil, ainda, tinha uma ditadura, mas, bem devagar, chegavam para nós o conhecimento sobre os equipamentos de surfe e as melhores ondas. Sim, estavam estes surfistas na fonte do conhecimento que era a Capital de São Paulo, nas bancas de jornal e revistas importavam-se leituras sobre o surfe. E, quem não se lembra do festival de filmes de surfe da GV? (Risos). Foi um acontecimento cultuado pela pequena população de surfistas que habitavam a Capital! Foi lá que muitos grupos se encontravam e, cada vez mais, se conheciam.

A segunda coincidência ou, talvez, mais um lance de sorte do destino foi o fato de várias famílias paulistanas terem o hábito de ir para Litoral e, para felicidade geral da galera, os nossos parentes também! (Risos). Que beleza! Um “apê” de frente para o pico! Resumindo, havia logística no quintal dos melhores surfistas brasileiros e os “locais” de Santos! (Risos). Daí, o crowd (Risos)! Santos foi uma boa escola para iniciantes, que tinha como lição número um, não parar de pensar em pegar onda, cada vez melhor e maior, em lugares com menos crowd! (Risos). A diferença de 10 anos é que os grupos de surfistas brasileiros das gerações anteriores, dos Anos 60 e 70, geralmente, moravam no Litoral e se formavam nas praias, eles eram os “locais do pico” e os de fora eram os Haoles. A geração paulistana de surfistas dos Anos 80 não mudou isso, mas apareceu com um novo estilo de vida, que foi a cultura das expedições de surfe e do momento de viver do surfe, diga-se, desportivamente, poder se sustentar como surfista. Os surfistas paulistanos estavam determinados a descobrir o máximo possível sobre o surfe. Até porque, não dá para ser local de pico nenhum na Cidade de Sampa! (Risos). Em alguns momentos de desespero sem onda, na escola, na faculdade ou no trabalho, umas idéias malucas de fazer uma piscina com ondas no Lago do Ibirapuera foram cogitadas! (Risos). Tudo isso era prefeito! Foi uma mudança cultural profunda, sendo ela o fruto, principalmente, da melhora da economia mundial, da tecnologia e da abertura democrática, somada a uma política de consumo e ondas surfáveis.

Os Soviéticos caindo, a tecnologia da informação começou a se globalizar, tornou-se possível o acesso até os mais remotos picos de surfe. Tchau, tchau guerra fria! Acabou a cortina de ferro! A ditadura estava acabada, também, no Brasil!Viva a liberdade!

Let’s Go surf now!

Por falar em liberdade, sim, e com certeza, ela teve que vir acompanhada da solidariedade, nem sempre vista em todas as praias, em algumas havia a violência do “localismo” do surfe. O episódio da mediação de conflito no Havaí, envolvendo o Eddie Aikau e os surfistas Australianos, contagiou o mundo esportivo da época, despertando uma esperança. Com certeza, Eddie Aikau foi um Rei da Paz para o surfe. A Paz que só se faz com o respeito recíproco entre os surfistas expedicionários (“os de fora – haoles”) e os “locais” (moradores da praia).

Continuando a crônica (risos!), depois de tantas expedições de surfe, muitos dos nossos colegas paulistanos praticaram o êxodo de São Paulo. Alguns que foram para Florianópolis, em 1986, ficaram por lá! Sério? Foi uma febre naquela Ilha da Magia! Ela contagiou muita gente por causa do surfe! Outros foram morar no Guarujá! Cada um buscando um lugar para surfar e viver. O êxodo dos surfistas paulistanos foi um fato! Pensando com as idéias atuais, o centro das nossas atenções, naquela época, se voltou para uma “consciência ecológica”, creio que até sem saber o que era isso, mas, o que importava eram as praias limpas, sem poluição, paz e tranquilidade.

Então, o destino levou-os para a Praia Branca do Guarujá! (Riso). Caminhada na trilha, comida na mochila, barraca, prancha e capa, às vezes dormíamos na capa. Tudo pelo surfe! O espírito da “surf trip” ganhou força e nos levou a sair de Santos. Ubatuba, Guarapari e Rio de Janeiro entraram para rol da nossa equipe. Alguns foram até para Califórnia e outros picos gringos, as barcas para Peru, Caribe, Europa e Pacífico. Foi muita aventura! Com certeza nossos ancestrais do surfe não imaginavam tanta mobilidade pelo mundo a procura das ondas! Aviões, embarcações e empresas de turismo esportivo se especializaram no atendimento aos surfistas. Com isso, até nos dias atuais, há contratempos, tendo, ainda, muita reclamação de surfistas quanto ao transporte de prancha.

Mas, imagine toda esta mobilidade nos anos 80? Não dá para contar todas as histórias, porém, aconteceram muitas aventuras boas antes deles chegarem à Ilhabela. Com certeza, a persistência e organização os levaram a fazer centenas de barcas de Bertioga a São Sebastião, já que eram praias características boas pela proximidade de São Paulo e bem desertas.

Capítulo 2 – Bertioga e Litoral Norte de São Paulo e o começo de uma habitualidade das expedições de surfe.

Uma das características que diferenciam os Anos 70 dos 80 é que as expedições de surfe a partir 1985 se tornavam um hábito. A Praia Branca foi refresco, perto das “roubadas” que era ir de carro para Maresias! (Risos).

E, era mais difícil, depois, para se chegar a São Sebastião. Para encurtar o papo, teve gente que bateu até de frente com carro numa vaca, outro colidiu com pedra rolada do morro na estrada! Sair de atoleiro ou subir o morro escorregadio foi coisa normal! Dificuldade para achar um lugar para dormir e comer, bem natural! Nossa! E, os carros da época, Fusca, Brasília, Kombi, Caravan, Fiat 147, Marajó, Chevete Hacht, etc. Mas, algo mágico acontecia quando se chegava a Camburi e estava rolando 1,5 m de onda perfeita, ou quando quebrava a vala do cemitério de Maresias, ou quando quebrava os tubos em Paúba, ou 3 metros de onda gigante e gorda, na ressaca, na Baleia, Guaecá ou São Lourenço. Também, não dá para se esquecer de como as praias de Bertioga eram desertas, rolando ondas enormes com direção de sul ou de leste. Daí, o progresso chegou com a BR 101 asfaltada! Então, como um refúgio imediato, a Praia Brava se tornou um bom lugar e, durante algum tempo, teve várias expedições para lá.

A Ilhabela estava perto e seria o próximo passo rumo a um surfe em lugares extremos. Havia grupos de surfistas se formando em todo litoral paulista. E, a Capital, também, produziu excelentes atletas. Era chegada à hora de convidar nossos colegas surfistas para irem até a Ilhabela. Para isso acontecer, uma liderança tinha que aparecer, precisava juntar vários surfistas amadores e criar uma agremiação e convencê-los que lá tinha onda perfeita.

Assim, aconteceu a proposta de fazer um torneio amador com surfistas de diferentes praias, a idéia, então, foi criar um Circuito de Surfe de Ilhabela e convidar os amigos para participarem.

Capítulo 3 – Fundação do Clube de Surfe de Ilhabela e as expedições de surfe ultra-radicais.

O Circuito de Surfe de Ilhabela cresceu e mudou seu nome para Clube de Surfe de Ilhabela, mas a sigla continuava CSI. Perfeito! Porém, toda logística era mais trabalhosa para surfar na Ilhabela. Foram verdadeiras batalhas pelas ondas e pela sobrevivência! (Risos). Para os padrões de turistas comuns, os surfistas do CSI eram loucos, porque, surfavam em lugares muito isolados daquilo que se chamava de “cidade” ou “civilização”. E, o mais incomum, era ter que viajar quando entrava temporal ou “frente fria”! Ressaca!

Foto 5

Foto de 1986, na onda Eduardo Pinguim, créditos para fotógrafo Picollino Zanata, com uma câmera xereta a prova d’agua. A foto que eu mais gosto! Não só pela onda mas pela atitude de ter sido, naquela época, e naquele ambiente, fotografada, comentou “Eduardo”.

Foto 10 (1) Foto 10 (2)

Fotos do 1˚ estatuto do Clube CSI, datilografado numa olivetti elétrica, pela sócia fundadora e grande amiga Angela!

Por conta de se buscar um meio ambiente mais sustentável e protegido, a Ilhabela que é um parque ecológico estava ao alcance, pensa-se que ela deva continuar sendo um santuário ambiental. Para sorte, os políticos, também, eles fizeram leis estaduais bem rigorosas em relação à preservação do meio ambiente em Ilhabela. Naquela época, o simples ato de surfar já se tornava bem complicado. Imagine um torneio amador de surfe? A primeira meta foi convencer os surfistas a participarem! (Risos).

Por conta do estilo de vida que se tinha na década de 80, parece que todas as linhas se tocavam, quer dizer, a comunidade de surfistas paulistanos não era tão grande, mas estava bem maior que a da geração anterior, mas, ainda, se conheciam quase a todos ou sabia-se das histórias, que eram contadas no crowd ou nas baladas de Sampa, geralmente, de dia de semana! (Risos). Ou na Vila da Ilhabela, ou no bar do meio e no xaolin de Maresias! No centrinho das Pitangueiras! (Risos). Quem não se lembra das “estórias”, “o fulano tá quebrando as ondas em Pitangueiras!” “O mar subiu e só cicrano e beltrano caíram na água e pegaram ondas grandes! “O cara vai ter patrocínio de Loja de Surfe”! Pronto! Sabia-se quem eram os “big riders” ou “merrequeiros” e aonde eles tinham ido surfar. Haviam notícias de quem eram os caras que iam para o circuito estadual ou nacional. Quem viajava para o exterior, que também, logo ficava conhecido. Havia sempre uma novidade no ar uma esperança de viver “do surfe” e “para o surfe”, que só se realizaria se você surfasse muito, quebrasse as ondas, tornando-se um profissional no esporte? Novidade! Com certeza! Os Anos 80 foram a “Década dos Australianos”. Eles foram bons de onda, mostrando outro tipo de surfe no Havaí e disseram ao mundo como fazer para se sustentar como surfista, viajar atrás de novos “points” e “secrets points” e viver surfando. Muitos destes surfistas eram bem pobres, mas, eles conseguiram chegar ao Havaí, como no exemplo do Rabitt Bartolomeu. Consequentemente, foi inevitável que eles entrassem em choque com a cultura de surfe chamada de “localismo”. Bem ou mal, essa história dos australianos influenciou todos os surfistas do mundo e aconteceram vários atritos dos “locais” contra os “haoles”.

Mas, a nossa conversa não é para virar um tribunal para se saber qual a cultura de surfe é a melhor ou a mais pura ou certa, etc. e etc., mas, reconhecer que isso nunca vai deixar de ser um assunto que provoca inúmeras discussões. No entanto, algo é certo no surfe, ele é um esporte individual que depende do coletivo para o desenvolvimento, das manobras e da evolução do esporte, e o surfista sempre vai precisar de alguém que o olhe em seus movimentos, que o observe em suas habilidades, surfando juntos e começando a melhorar pela integração num grupo desportivo, mesmo que não seja profissional. A disciplina, o condicionamento físico, a Paz de Espírito e os bons amigos fazem crescer o surfe de qualquer um que se dedique, esse é um fato.

E, foi assim, que aconteceu com o CSI. As barcas corriam em paz e surfávamos muito! Mas, sem perder o foco na competitividade! O CSI demonstrou que pode haver ao mesmo tempo a cooperação e a competição. Foi esse o pensamento que envolveu o grupo que criou o CSI. Desenvolveu-se um estilo de vida próprio, que se tem para o surfe em lugares ultra-radicais e, também, convivendo com a competição. Isso só foi possível acontecer entre amigos surfistas, que freqüentavam a Ilhabela nos Anos 80. O grupo integrou-se com a comunidade caiçara, isso fez a diferença em prol da solidariedade, do respeito e da convivência pacífica. Os convidados do CSI, também, souberam respeitar e foram respeitados. Os surfistas iniciantes, igualmente, foram integrados ao grupo. Formou-se uma primeira geração de surfistas competitivos de que se tem notícia nos picos dos Castelhanos, do Bonete e da Laje do Areado, competitivos e sobreviventes em ambientes remotos, são os próprios nativos que afirmaram isso.

Fotos da época, embarcados para a competição na etapa 1995  do Campeonato no Bonete, Head Judge José Carlos Paioli – Legend.

O preparo físico para competitividade vinha em boa parte do esforço de chegar aos picos e de se manter neles. Antes disso, é claro, que nesses picos, outros surfistas moradores que eram os “locais” já curtiam as suas ondas e, também, raramente, apareciam uns poucos surfistas turistas vindos de embarcação, fatos que não garantiram uma regularidade ao surfe competitivo na Ilhabela. Mas, com o CSI as coisas foram diferentes, e isso foi feito pela geração paulistana dos Anos 80, uma geração de surfistas que foi, nitidamente, influenciada pelo comportamento dos surfistas Australianos, como eles, aquela geração esteve focada no surfe e nas suas manobras, que iam evoluindo, especialmente, fazendo mudanças nas pranchas, vivendo o dia a dia do surfe em praias intocadas, sem perder a noção do desenvolvimento do esporte. Participando da comunidade da pesca artesanal e da comunidade tradicional caiçara e, ao mesmo tempo, tentando tornar viável expandir para o surfe profissional! (Risos). Alguns conseguiram como os Australianos, que valorizavam a experiência de viagens para surfar as ondas perfeitas, porque acreditavam que faz o surfe evoluir. Acontecimentos, como puxar canoa e comer peixe assado na folha de bananeira e ficar trocando idéias com os pescadores depois de ter que andar 4 horas com a prancha, a comida e a bagagem! Valia o esforço! Quase sempre se tinha a recompensa de pegar o triângulo mais perfeito. Depois de uma temporada completa na Ilhabela o surfista, igualmente, se tornava um especialista em sobrevivência, devido às condições bem primitivas dos picos. Se virar, no meio da mata atlântica, não nada fácil. É só olhar o mapa da Ilhabela para entender as dificuldades que a região apresenta com obstáculos naturais preservados. Uma vez, depois de uma temporada no Bonete, voltando para São Paulo, segurando a fome até achar um lanche do Mcdonalds! (Riso). Na verdade, as condições de acesso aos picos de Ilhabela são difíceis até hoje! Imagine nos anos 80? Picada de aranha, lesão por quilhada na cabeça, fadiga muscular, hipotermia, infestação de vários tipos de insetos, inclusive, baratas, isolamento por más condições do mar ou da trilha, operação de resgate com embarcações, tudo isso, foi vivido e aperfeiçoado junto com o surfe. Em relação à qualidade de ondas, Castelhanos não gera swell tão perfeito como o do Bonete, mas tem seus dias de glória. Sendo possível chegar lá com veículos, de preferência na época dos Anos 80 era o Jipe 4 X 4, C10, D10, Toyota Bandeirante ou carro com tração nas rodas traseiras! (Risos). E, como a logística era só com veículos, o primeiro CSI aconteceu em Castelhanos! Depois, teve uma segunda edição lá mesmo, e, por fim, rolou a etapa do Bonete em 1995!

Foto 6

Momento de solidariedade. CSI resgata a equipe do Zé Paulo, com a lancha Teeleap de uso do CSI, no barco que resgatou a equipe e o cachorro machucado, estavam Eduardo Pinguim e Ivan Cabral, na época pedimos para nem mencionar nossos nomes, kkkkkkkk! Secret Point !!!

Todos a bordo! Numa aventura sem precedentes, realizou-se o primeiro campeonato de surfe amador embarcados! Nada veio ao acaso, só precisava de organização e liderança. Para se ter idéia do sucesso do evento, na comissão de árbitros, o “head judge” foi um cara das antigas, “brother”, surfista sensacional, de Santos e “local” do Canal 1. Hoje ele mora no Litoral Norte. Isso significou união, sangue-bom e amizade.

Foto 7

1988 Segunda etapa do CSI em Castelhanos – Eduardo Pinguim conferindo as chaves das baterias – foto tirada por Fabio Franco

1988 a galera na praia, na segunda etapa do CSI em Castelhanos.

O CSI foi uma corrente que durou 10 anos de atividade desportiva amadora de alto nível de surfe praticado em Ilhabela. Espetáculos de tubos e ondas grandes, aliados ao grau de dificuldade para se chegar às praias, as quais têm belezas que já não podiam ser vistas nos picos normais de surfe no ambiente das cidades litorâneas de veraneio. É claro, que todos os sócios fundadores e os convidados do CSI, também, fizeram viagens para surfar no exterior, no fundo foram procurar aquela Paz de Espírito que as descobertas de novas ondas fazem você sentir. Mas, sempre quando voltavam para o Bonete, afirmavam que aquela onda é umas das melhores do mundo. A Ilhabela é conhecida como a Capital da Vela, mas bem que poderia ser por uma onda, a especial que é a “boneteira”, pode ser dita como a mais perfeita dentro dos critérios de avaliação do surfe profissional, ela é um triângulo de massa d’água, quebrando numa bancada de areia rasa e batida com transparência num costão de pedras triangulares que rebatem a ondulação para rebentação a dentro, uma direita e uma esquerda tubulares, podendo ser classificada, pela predominância e constância, como sendo um pico para direita, mas rolam as esquerdas no meio da praia e até na barra do rio, que segura maiores ondulações, de até 10 pés, quando entra a ressaca do mar. Sobre a Laje do Aerado, ela é um “point break” para esquerda, com acesso bem restrito por terra, geralmente, se chega de barco. Quebra de leste, sem vento é melhor, mas pode rolar com vento terral de oeste ou com sul fraco, às vezes fica difícil fundear o barco próximo do pico, por isso o conhecimento de navegação deve prevalecer para segurança. Com ventos soprados do sul ou do leste, a Ilhabela tem como recepcionar as ondulações vindas destes dois pontos cardeais, portanto, ela supre totalmente as expectativas de constância de surfe e garante um bom tamanho de onda para os padrões da costa do sudeste brasileira. Dirigindo-nos aos amigos do CSI, diga-se que não importa onde vocês estejam – o que se espera é que vocês possam ler esta homenagem – porque vocês foram os protagonistas principais de muitas histórias. E, tenham para vocês os nossos agradecimentos, porque vocês tornaram tudo isso possível, mesmo quando tudo parecia ser impossível!

Foto 9 (11)

Essa é a nossa história! Qual é a sua? Você que leu, vá buscar as suas ondas, persista e não deixe para trás as amizades que são importantes e valiosas, quando chegar num pico de surfe respeite para ser respeitado. Drope a onda, não embique, vire na base, manda uma na junção e depois dá um floter e, finalize pegando um tubo! E, então, seja feliz para sempre!

 

Por: Surf Today / Fonte: Eduardo “Pingüim” (Sócio fundador e Presidente vitalício do CSI)

 

Aloha! Brazilian Surfers!

 

Sobre JR Mirabelli

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